
A arbitragem brasileira vive um momento de virada. Em meio às discussões sobre modernização, estrutura e responsabilidade, a CBF tem direcionado energia e investimento para fortalecer um setor historicamente pressionado. No centro desse processo está o presidente da entidade, Samir Xaud, que vem sendo elogiado pela coragem, pela visão moderna e pelo cuidado contínuo com os árbitros do país.
Entre os líderes que acompanham esse movimento de perto está Salmo Valentim, presidente da Associação Nacional dos Árbitros de Futebol. Sereno, preparado e respeitado pela categoria, Salmo tem sido uma das vozes mais equilibradas do debate. Para ele, o momento é de reconstrução, mas também de oportunidade. E, segundo afirma, a profissionalização dos árbitros é não apenas necessária, mas inevitável.
Em entrevista exclusiva à Tribuna do Apito, Salmo falou sobre o papel da CBF, elogiou a postura firme e ousada de Samir Xaud e comentou a forte pressão enfrentada pelos árbitros na reta final do Campeonato Brasileiro.
A seguir, a íntegra do bate-papo.
ENTREVISTA
Tribuna do Apito – Presidente, como o senhor avalia a atual relação da CBF com a arbitragem?
Salmo Valentim:
É um momento muito positivo. O presidente Samir Xaud tem mostrado sensibilidade, coragem e preparo para tratar a arbitragem com o respeito que ela merece. Ele é jovem, mas não foge das discussões difíceis e tem tomado decisões que a categoria aguardava há muitos anos. Hoje eu vejo uma CBF que escuta, dialoga, valoriza e protege o árbitro dentro da estrutura do futebol.
Ao mesmo tempo, esse diálogo ganhou um instrumento concreto com o Grupo de Trabalho da Arbitragem. O GT é a ponte que tira o discurso do papel e transforma em projeto, cronograma, meta e entrega. Ali vamos discutir modelo de carreira, preparação, avaliação e proteção ao árbitro. É um grande passo para que tudo o que defendemos se torne realidade.
Tribuna do Apito – O senhor tem defendido publicamente a profissionalização. Por que isso precisa avançar agora?
Salmo Valentim:
Porque o futebol mudou e não volta mais atrás. O jogo hoje é mais intenso, mais físico, mais veloz e mais tecnológico. Não dá para cobrar excelência de um árbitro que vive em insegurança, sem dedicação exclusiva, sem estrutura permanente de treino, preparo mental, recuperação e análise de desempenho. A profissionalização não é luxo, é condição mínima para que o árbitro acompanhe o nível que o futebol exige.
Ela também não pode ser um projeto que aparece em época de crise e depois desaparece. Precisa ser uma política permanente, com etapas bem definidas e metas claras. O nosso horizonte tem de ser as principais ligas do mundo. Se as grandes ligas europeias oferecem estrutura de alto rendimento para a arbitragem, o Brasil, que é um país continental e potência no futebol, tem obrigação de mirar esse padrão.
O papel do GT da arbitragem é organizar esse caminho. Discutir carreira, modelo de contrato, tempo de dedicação, critérios de avaliação, formação constante e proteção institucional ao árbitro. Profissionalizar é isso. É garantir que o árbitro possa viver da arbitragem com dignidade, ser cobrado com justiça e ter condições reais de entregar o melhor.
Tribuna do Apito – Estamos na reta final do Brasileirão. Qual o impacto da pressão sobre os árbitros neste momento?
Salmo Valentim:
A pressão é gigantesca. São jogos que decidem título, vaga em competição internacional, rebaixamento, orçamento de clube, futuro de elenco, comissão técnica e diretoria. Os estádios estão cheios, o ambiente é emocionalmente explosivo, cada detalhe ganha um peso enorme.
Mesmo assim, os árbitros brasileiros seguem entregando um nível de atuação que, na minha visão, é comparável às melhores ligas do mundo. As pessoas olham para um ou outro erro e esquecem o volume de decisões corretas em jogos extremamente complexos. O árbitro brasileiro trabalha sob uma carga emocional e midiática muito maior do que a média internacional e ainda assim se mantém em alto padrão.
Por isso eu sempre repito que o centro da discussão precisa ser a valorização do profissional. Criticar faz parte, mas linchar publicamente a cada rodada não ajuda em nada a melhorar o futebol.

Tribuna do Apito – O senhor acredita que esse movimento da CBF pode levar a uma transformação definitiva?
Salmo Valentim:
Eu acredito, sim. Pela primeira vez em muito tempo eu vejo uma gestão da CBF que olha para a arbitragem com visão estratégica. A ANAF tem sido recebida, ouvida e respeitada. Existe diálogo, existe espaço para discordar e construir. E isso só acontece porque o presidente Samir Xaud demonstra comando, equilíbrio e compromisso real com o desenvolvimento do futebol brasileiro. Ele não tem medo de inovar.
Mas para que essa transformação seja definitiva, precisamos ir além do discurso. O GT da arbitragem é a mesa certa para isso. É ali que vamos alinhar o padrão que queremos, com referência nas principais ligas do mundo, e também corrigir distorções internas que se arrastam há décadas.
O Brasil é um país continental. Não é mais possível pensar a arbitragem com uma mentalidade que enxerga quase tudo só a partir do eixo Sul e Sudeste. Se o futebol é nacional, a oportunidade tem de ser nacional. Precisamos otimizar de verdade as chances para árbitros de todas as regiões, com atenção especial ao Norte e ao Nordeste, que formam quadros de enorme qualidade, mas ainda aparecem menos nas grandes vitrines. Profissionalizar também é corrigir esse desequilíbrio regional.
Outro ponto decisivo é a arbitragem feminina. O mundo moderno não aceita mais que um país como o Brasil tenha apenas uma mulher atuando na Série A e um número de escalas femininas que não chega a dez por cento do total. Isso não é detalhe estatístico, é um sinal claro de que o sistema ainda não oferece igualdade real de oportunidade. Valorizar a arbitragem feminina não é enfeite, é parte central do futuro da modalidade. O GT precisa tratar esse tema como prioridade, definindo metas concretas para ampliar espaço, formação e presença das mulheres no topo.
Tribuna do Apito – Para finalizar, qual a mensagem do senhor para a categoria?
Salmo Valentim:
A minha mensagem é de firmeza e esperança. Eu peço que cada árbitro e cada assistente siga comprometido, estudando, treinando, cuidando do físico e da parte mental, porque o momento que estamos vivendo é um dos mais promissores dos últimos anos.
Ao mesmo tempo, eu preciso ser honesto. O nosso sistema ainda tem distorções e nós vamos trabalhar para corrigi las. Temos de defender a meritocracia de verdade, não a meritocracia de discurso. Em qualquer ambiente competitivo, quem entrega excelência avança e quem não entrega precisa ser corrigido. Na arbitragem não pode ser diferente.
Só que meritocracia só existe quando todos têm condições iguais de disputa. Calendário, preparação, acompanhamento, acesso a jogos grandes e critérios claros de avaliação para árbitros de todas as regiões e para homens e mulheres. Não podemos romantizar erro nem passar a mão na cabeça de quem não está performando, mas também não podemos aceitar um sistema que favorece sempre os mesmos, concentra oportunidade em poucos centros e ainda coloca a mulher em condição quase decorativa no quadro.
A transformação depende de responsabilidade compartilhada. CBF, federações, clubes, STJD, atletas, ex árbitros, ex jogadores, imprensa e entidades de classe precisam entender que arbitragem forte é pilar de futebol forte.
O Grupo de Trabalho da arbitragem foi criado para enfrentar esse conjunto de desafios e a ANAF vai estar presente, cobrando, propondo e defendendo o árbitro em cada etapa. Eu acredito que, se mantivermos essa união entre CBF, federações, clubes, STJD, atletas, ex árbitros, ex jogadores, imprensa, ANAF e demais representantes da categoria, a arbitragem brasileira não vai apenas acompanhar o futebol moderno. Ela tem tudo para se tornar referência global em organização, em transparência e em respeito a quem entra em campo para garantir a justiça do jogo.




