
Por: Pedro Paulo de Jesus
O futebol brasileiro tem o hábito de transformar protagonistas em personagens descartáveis. A mesma estrutura que aplaude resultados costuma abandonar seus líderes quando os ventos mudam de direção. A saída de Rodrigo Cintra do comando da Comissão de Arbitragem da CBF parece seguir exatamente esse roteiro.
Anunciada pela entidade no início desta semana, a troca coloca Sandro Meira Ricci à frente do setor mais sensível do futebol nacional, encerrando uma passagem que durou pouco mais de um ano, mas que foi marcada por profundas transformações e também por intensas disputas de bastidores. A decisão ocorre em um momento de reformulação da estrutura da arbitragem brasileira e poucos meses após a implementação do projeto de profissionalização dos árbitros, uma das principais bandeiras da gestão de Cintra.
Trazido para a CBF durante a administração de Ednaldo Rodrigues, Rodrigo Cintra carregava desde o início um desafio quase impossível: reconstruir a credibilidade de um departamento que acumulava críticas de clubes, dirigentes, atletas e torcedores. Herdou uma estrutura desgastada, consequência de anos de questionamentos e da turbulenta reta final da gestão anterior.
Seus defensores afirmam que ele encontrou uma casa em chamas e conseguiu ao menos controlar parte do incêndio. Seus críticos argumentam que a reconstrução jamais alcançou a velocidade prometida.
A verdade provavelmente está no meio do caminho.
Cintra participou ativamente da implantação da profissionalização da arbitragem, algo discutido há décadas no futebol brasileiro e que finalmente começou a sair do papel. Também esteve envolvido em projetos tecnológicos e em iniciativas de modernização que receberam elogios internos e externos.
Mas nem sempre competência técnica é suficiente para garantir sobrevivência política.
Nos corredores do futebol, costuma-se dizer que o poder não pertence necessariamente a quem ocupa a cadeira mais visível. Pertence a quem controla as engrenagens. E foi justamente nesse terreno que a gestão de Cintra encontrou seus maiores obstáculos.
Pessoas ligadas ao ambiente da arbitragem relatam que sua governabilidade começou a sofrer desgaste quando optou por preservar boa parte da estrutura herdada da administração anterior. A decisão, vista inicialmente como sinal de estabilidade, acabou produzindo ruídos internos e dificultando a construção de uma identidade própria para sua gestão.
Ao longo dos meses, também se acumulavam relatos sobre dificuldades de relacionamento, promessas nem sempre cumpridas e uma crescente distância entre discurso e execução. Em política esportiva, isso costuma cobrar um preço elevado.
Outro fator determinante foi a mudança do cenário político dentro da própria CBF. A saída de Ednaldo Rodrigues representou o enfraquecimento natural de diversos nomes associados à sua administração. Cintra estava entre eles.
Quando a sustentação política desaparece, até mesmo projetos considerados bem-sucedidos passam a ser analisados sob outra ótica.
Nos bastidores, a relação com Netto Góes, diretor executivo de arbitragem e figura cada vez mais influente na estrutura da entidade, tornou-se um dos principais pontos de desgaste. O que começou como uma convivência institucional transformou-se, segundo relatos de pessoas próximas ao setor, em uma divergência pública de visões sobre os rumos da arbitragem brasileira.
Talvez tenha sido o maior erro estratégico de Cintra.
Subestimar quem detém poder efetivo dentro de uma organização raramente produz finais felizes.
Quando a decisão de mudança amadureceu internamente, o desfecho parecia inevitável. A permanência já não dependia apenas dos resultados entregues, mas da capacidade de articulação política que sustenta qualquer dirigente em cargos de alto escalão.
Sua saída abre espaço para Sandro Meira Ricci, ex-árbitro FIFA, profissional respeitado internacionalmente e que chega com a missão de dar continuidade ao processo de profissionalização enquanto tenta reduzir a temperatura das constantes crises envolvendo a arbitragem nacional.
Para Rodrigo Cintra, fica um legado que certamente será debatido durante muito tempo.
Não foi o responsável pelos problemas históricos da arbitragem brasileira. Também não conseguiu solucioná-los por completo.
Assumiu uma das funções mais ingratas do futebol nacional, conviveu diariamente com pressão permanente e ajudou a implementar mudanças que podem produzir efeitos positivos nos próximos anos.
Ao mesmo tempo, sua trajetória serve como lembrete de uma velha máxima dos bastidores do poder: cargos elevados costumam proporcionar prestígio, influência e reconhecimento. Mas também carregam um efeito colateral silencioso.
A solidão.
Porque, no futebol, os aplausos costumam ser numerosos enquanto a cadeira está ocupada.
Quando ela fica vazia, quase sempre sobra apenas o silêncio.




