
Por: Pedro Paulo de Jesus
A decisão do presidente da Confederação Brasileira de Futebol, Samir Xaud, e do diretor de arbitragem Netto Góes de entregar a Comissão de Arbitragem a Sandro Meira Ricci pode representar um dos movimentos mais importantes da nova gestão da entidade.
Ex-árbitro FIFA, participante de duas Copas do Mundo e com passagem recente pela estrutura profissional da arbitragem da MLS, nos Estados Unidos, Sandro retorna ao futebol brasileiro carregando uma bagagem rara: experiência dentro das quatro linhas, vivência internacional e conhecimento dos bastidores da gestão moderna da arbitragem. A própria CBF destacou sua atuação como gerente de árbitros da Professional Referee Organization (PRO), responsável pela gestão da arbitragem da liga norte-americana.
Mais do que um técnico conhecedor das regras, Sandro assume uma das funções mais desgastantes e pressionadas do futebol brasileiro. A arbitragem nacional vive há anos sob intenso escrutínio de clubes, dirigentes, torcedores e imprensa, mesmo após avanços recentes em profissionalização, treinamento e transparência.
Mas há um diferencial importante a seu favor: o respeito da categoria.
Diferentemente de muitos gestores que chegam aos cargos sem trânsito entre os profissionais da arbitragem, Sandro construiu uma carreira sólida, atuou nos principais palcos do futebol mundial e conhece profundamente as dificuldades enfrentadas por árbitros e assistentes. Esse reconhecimento interno pode ser decisivo para restabelecer a confiança e fortalecer a governabilidade da comissão.
O desafio vai muito além dos gramados

Se dentro de campo a arbitragem brasileira já enfrenta pressão permanente, nos bastidores os desafios são ainda maiores.
A chegada de Sandro acontece em um momento de transformação estrutural promovida pela gestão Samir Xaud, que criou uma diretoria específica para a arbitragem e ampliou os investimentos no setor. A profissionalização da categoria, a adoção de novas tecnologias e os programas de capacitação colocaram a arbitragem brasileira em posição de destaque internacional, inclusive com forte presença de profissionais brasileiros na atual Copa do Mundo.
Entretanto, experiência recente mostra que conhecimento técnico, sozinho, não garante sucesso administrativo.
Para muitos observadores do setor, uma das dificuldades enfrentadas pela gestão anterior de Rodrigo Cintra foi a manutenção de parte significativa da estrutura herdada de Wilson Seneme. Embora tenha conduzido avanços importantes, a convivência entre diferentes correntes de pensamento dentro da comissão acabou dificultando a construção de uma identidade única para a arbitragem brasileira.
Por isso, uma das primeiras missões de Sandro será montar uma equipe alinhada ao seu projeto de gestão.
Nenhum presidente de comissão consegue implementar mudanças profundas sem pessoas de confiança ocupando posições estratégicas. A história recente da arbitragem brasileira demonstra que projetos consistentes exigem unidade de comando, clareza de objetivos e sintonia entre todos os integrantes da estrutura.
Se quiser deixar sua marca, Sandro precisará promover uma renovação criteriosa, valorizando competência, experiência e compromisso com o novo modelo que pretende implantar.
Relação com a Abrafut será fundamental

Outro ponto decisivo para o sucesso da nova gestão será a capacidade de diálogo com a ABRAFUT.
Nos últimos anos, a arbitragem brasileira avançou no debate sobre profissionalização, condições de trabalho, capacitação e valorização dos árbitros. Nesse cenário, a aproximação entre a CBF e as entidades representativas tornou-se indispensável para a construção de soluções duradouras.
Sandro conhece a realidade da categoria e sabe que nenhum projeto de modernização prospera sem diálogo permanente com aqueles que estão em campo todos os finais de semana.
Construir pontes, ouvir as demandas dos profissionais e estabelecer uma relação institucional sólida com a Abrafut poderá ser tão importante quanto corrigir critérios técnicos ou aperfeiçoar protocolos do VAR.
Uma oportunidade histórica

A arbitragem brasileira continua produzindo profissionais respeitados internacionalmente. A presença constante de árbitros e assistentes brasileiros em competições da FIFA comprova isso. Ao mesmo tempo, os erros que inevitavelmente ocorrem em um campeonato da dimensão do Brasileirão seguem alimentando críticas e desconfiança da opinião pública.
É justamente nesse cenário que Sandro Meira Ricci recebe sua grande oportunidade como gestor.
Ele chega respaldado por um currículo incontestável, pela experiência adquirida no exterior e pelo respeito conquistado junto à categoria. Mas o verdadeiro teste começará agora.
Se conseguir formar uma equipe forte, renovar a estrutura da comissão, estreitar laços com a Abrafut e consolidar os avanços promovidos pela atual administração da CBF, Sandro terá condições de liderar uma das mais importantes transformações da arbitragem brasileira nos últimos anos.
A aposta feita por Samir Xaud e Netto Góes é clara: entregar a arbitragem nacional a alguém que conhece o campo, entende a gestão e possui credibilidade para conduzir mudanças. O desafio é enorme. O potencial para o sucesso, também.




