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Arbitragem brasileira: mesmo com diploma universitário, maioria vive exclusivamente do futebol

Exigência de formação superior pela CBF não garante atuação profissional fora das quatro linhas; árbitros FIFA são os que mais vivem da modalidade

Por Pedro Paulo de Jesus 

Embora a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) exija diploma universitário para que um árbitro integre seu quadro, a realidade prática mostra que a maioria dos profissionais da arbitragem não exerce nenhuma atividade relacionada à formação acadêmica. Em diversos estados do país, inclusive nas principais federações, árbitros vivem exclusivamente da renda obtida no futebol.

A exigência da graduação foi oficializada em 2020, dentro da reformulação do Programa de Assistência à Arbitragem Brasileira (PNAF), com o objetivo de valorizar o nível técnico e intelectual da arbitragem. No entanto, a medida não teve impacto direto na inserção dos árbitros no mercado de trabalho fora do esporte. Segundo levantamento feito pela TRIBUNA, boa parte dos árbitros brasileiros atua apenas em competições de futebol, dependendo financeiramente de escalas, diárias e taxas pagas por jogos e cursos.

Esse cenário é ainda mais evidente entre os árbitros do quadro FIFA. Por estarem na elite da arbitragem nacional e internacional, esses profissionais são os que mais se dedicam exclusivamente à atividade. Com agendas intensas, viagens frequentes e escalas em torneios da CBF, Conmebol e FIFA, quase todos eles optam por não manter outra profissão, mesmo tendo formação superior em áreas como direito, educação física ou administração.

Para especialistas da área, a ausência de uma carreira paralela não é necessariamente um problema, desde que haja qualificação técnica contínua. No entanto, o que se observa é que a dedicação exclusiva não tem sido acompanhada, em muitos casos, de evolução no desempenho. Esse ponto tem gerado debates dentro das comissões de arbitragem, que enfrentam dificuldades para renovar os quadros e dar espaço a novos talentos.

Outro ponto que levanta discussões é a permanência de árbitros com mais de 45 anos. Sem perspectiva de ascensão nacional ou internacional, muitos continuam atuando apenas como forma de manter a renda mensal. A presença recorrente desses profissionais tem, segundo dirigentes e ex-árbitros ouvidos pela reportagem, limitado o processo de renovação técnica na arbitragem brasileira.

“Temos árbitros formados, com experiência e qualidade, mas que não conseguem espaço porque há uma manutenção prolongada de nomes que já não buscam crescimento profissional”, afirma um dirigente de comissão estadual que pediu anonimato.

Apesar dos desafios, a CBF tem investido em programas de capacitação e intercâmbio internacional para seus árbitros, além de manter um sistema de avaliação física e técnica periódico. A entidade também promove cursos regulares e mantém convênio com Federações e centros de formação. Ainda assim, há um consenso de que o modelo atual precisa evoluir para alinhar formação acadêmica, desempenho técnico e sustentabilidade financeira da carreira.

Enquanto isso, o apito segue como a principal e, muitas vezes, única fonte de sustento para grande parte dos árbitros brasileiros.

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